A previsibilidade é uma das maiores ameaças da intimidade - O que o filme O Convite nos convida a pensar?
- Katya Borges
- 14 de ago.
- 2 min de leitura

Este texto surgiu a partir de um story despretensioso no Instagram que, curiosamente, repercutiu imenso, e resolvi escrever mais sobre o tema.
Recortes do filme O Convite tem sido citado com frequência nas sessões de psicoterapia.
A minha primeira pergunta, como terapeuta, costuma ser:
— O que exatamente te atravessou nesse filme?
E é a partir dessa pergunta que uma boa conversa começa a ser tecida.
Há filmes que continuam dentro de nós por muitos dias. A trama em si de O Convite não me impactou tanto, porque observo o assunto repetidamente na clínica: os relacionamentos raramente acabam por causa de um único acontecimento. Eles vão se desfazendo silenciosamente, em pequenos afastamentos.
E essa talvez seja uma das dores mais difíceis de reconhecer.
As conversas que deixam de acontecer.
As perguntas que deixam de ser feitas.
As partes da vida que já não encontram espaço para serem compartilhadas.
Durante muito tempo, pensei que o maior problema dos casais fosse a falta de comunicação. Hoje, depois de escutar tantas histórias de homens e mulheres, começo a acreditar que o problema começa um pouco antes.
Não quando a conversa deixa de acontecer.
Mas quando a curiosidade pelo outro vai desaparecendo.
A curiosidade de continuar descobrindo quem a pessoa amada está se tornando.
As conversas passam a se limitar à gestão do cotidiano: contas, filhos, compromissos, supermercado, etc.
Mas administrar uma rotina não é o mesmo que cultivar intimidade.
A intimidade nasce quando ainda existe o desejo genuíno de perguntar:
"Como tem sido, para você, viver estas novas fases da vida?"
"O que mudou dentro de você que eu ainda não percebi?"
"Quais são os seus medos hoje?"
"Quais sonhos continuam vivos?"
Talvez a maior ilusão dos relacionamentos longos seja acreditar que já conhecemos completamente a pessoa que está ao nosso lado. O longo tempo de convivência pode torna o outro previsível aos nossos olhos.
Mas ninguém permanece igual durante trinta ou quarenta anos de vida. Mudamos quando a vida nos obriga a reorganizar quem somos.
E, curiosamente, muitos casais continuam se relacionando com a versão do outro que conheceram anos atrás.
Quando acreditamos que já sabemos quem o outro é, deixamos de fazer perguntas.
Sem perceber, substituímos a curiosidade pela certeza.
E talvez seja exatamente aí que a intimidade comece a adoecer.
Hoje penso que o verdadeiro desafio do amor na maturidade não é permanecer ao lado da mesma pessoa.
É continuar descobrindo quem essa pessoa está se tornando.
Como se, de alguma forma, ela ainda pudesse nos surpreender.



Ao ler o seu Stories, a questão da falta de curiosidade sobre em quem a pessoa que está ao seu lado vem se transformando me impactou.
No dia seguinte, enquanto tomavamos o café da manhã na varanda, do nada meu marido começou a contar coisas bem dificeis sobre a sua infância. Coisas que eu não conhecia. E terminou dizendo que aquilo provavelmente justificava o fato dele ser acumulador. E acrescentou que estava disposto a mudar. Achei tão surpreendente, porque há anos discutimos sobre esta caracteristica dele, e ele sempre se mostrou defensivo.
😀 Um excelente assunto para o nosso próximo encontro presencial, viu? Beijinhos