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O Feminismo Maduro


Março chega todos os anos trazendo consigo o chamado mês da mulher. As redes se enchem de flores, homenagens e mensagens de celebração. Ao mesmo tempo, surgem discursos fortes sobre luta, resistência e enfrentamento.


E tudo isso faz sentido. A história das mulheres foi, e ainda é, marcada por batalhas profundas para conquistar algo que deveria ser simples: o direito de existir com dignidade, autonomia e liberdade. Os movimentos feministas nasceram exatamente da necessidade de transformação e continuam sendo fundamentais para questionar estruturas que por muito tempo silenciaram e limitaram a vida das mulheres.


Mas, nos últimos tempos, uma pergunta tem surgido dentro de mim. Uma pergunta que talvez só apareça quando a vida já nos atravessou décadas de muitas experiências (amores, decepções, maternidade, menopausa, mudanças no corpo, envelhecimento, perdas, reinvenções e recomeços) e algo muda profundamente dentro de nós. São tantas batalhas vividas que às vezes me pergunto:

Será que ainda precisamos viver em estado permanente de luta e confronto?

Será que, quando a mulher amadurece, o feminismo também amadurece com ela?


Tenho sentido um desalinho sutil. Alguns discursos e referências parecem já não caber completamente na mulher que me tornei. Não sei ainda explicar isso de forma definitiva, mas sinto vontade de elaborar essa reflexão junto com vocês .


De forma alguma deixei de acreditar nos movimentos feministas. Pelo amor das Deusas! Até porque estou exercendo meu feminismo muito mais agora na maturidade, mas talvez tenho sentido que a forma de viver essa força se transformou com o tempo. Acredito que há um momento em que a força já não precisa gritar. Ela se sustenta. A gente começa a perceber que a liberdade também pode nascer de outras fontes, não apenas do confronto. Às vezes, a força mais potente é aquela que se move em silêncio. A esta altura da vida, uma militância que nasce da sabedoria de não aceitar mais relações que nos diminuem, de colocar limites com serenidade e de buscar reconciliação com a própria história.


Despertamos para aquilo que realmente importa: nossas necessidades, nossas prioridades, nosso autocuidado. Passamos a ocupar nosso lugar com mais consciência , não mais no final da fila, mas na primeira. Também começamos a compreender como muitos sistemas sociais nos induziram, durante anos, a competir entre nós mesmas. E percebemos que essa competição não nos serve mais.


Descobrimos que é possível viver um feminismo que não nasce da raiva ou da reatividade. Podemos viver um feminismo que nasce da consciência.

O feminismo jovem abriu portas importantes. Mas talvez o feminismo maduro esteja começando agora a ampliar essa história, trazendo novas narrativas que devolvem dignidade e visibilidade ao envelhecimento feminino.


A revolução das mulheres maduras também é coletivo. Ela pode ser mais silenciosa. Mais sutil. Mas nem por isso menos transformadora. É uma revolução que acontece todos os dias. Na forma como nos posicionamos nas relações. Na forma como escolhemos viver a segunda metade da vida. Na forma como deixamos de nos diminuir para caber em lugares que já não nos pertencem.


Talvez esse seja um dos novos capítulos da história das mulheres. Um feminismo que continua buscando justiça, mas que também reconhece a sabedoria que nasce da maturidade. Um feminismo que já não precisa provar força o tempo todo, porque se deu conta de que a verdadeira liberdade começa dentro.





 
 
 

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2 comentários


Cris Landi
há 5 dias

Uma reflexão lúcida e que me identifico por aqui. A maturidade nos traz a consciencia e a necessidade de nos posicionar e marcar nosso espaço como mulheres de novas formas. Nao apenas na militancia , mas no dia a dia, na relacao com família e amigos, na educaçao dos filhos…

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Convidado:
há 4 dias
Respondendo a

Obrigada Cris, é impressionante como vamos ficando lúcidas, camada por camada, assim vamos ficando mais leves 💜

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